O lado racista do Design – Parte II

-Essa é a parte II do Post “O lado racista do Design”

Mais uma vez, antes de começar o post, quero declarar alguns pontos:

1) A opinião do post é minha, sobre minha ótica, minha vivência e minhas reflexões.

2) Não é um texto fácil. Há exposições de diversas formas de racismo no design e comunicação visual, e pode ter gatilhos mentais.

3) Vou apontar marcas, campanhas, industrias que apresentam ou apresentaram vies racistas. Caso o post chegar em alguma dessas empresas, ou os colegas profissionais que participaram do estudo de caso, vejam isso como uma oportunidade para pensar e repensar questões, atitudes opiniões a respeito do mundo, nossa sociedade e nossa responsabilidade na posição de comunicador, seja do produto oferecido, ou para quem cria. Leiam o post novamente e os outros links que estarão espalhados ao longo do texto.

4) Estou totalmente aberto a conversar, dialogar, debater da forma mais civilizada possível.

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“Você pode matar um revolucionário, mas não pode matar a revolução” – Fred Hampton

 

No post anterior, apontei aqui uma das incontáveis formas que o racismo é apresentado através da industria criativa e comercial. Até o momento desse post, não obtivemos nenhum retorno da fabrica de queijadas “A Casa do Preto”, sobre qualquer explicação, justificativa, ou diálogo sobre a apresentação visual da marca, e todos os outros motivos que apontamos a marca como uma representação racista de uma pessoa negra. Infelizmente, isso não é exclusivo dessa empresa, e apresentaremos aqui outras manifestações de racismo no design, publicidade, produto, e por ai vai.

O objetivo com isso é apontar quão nocivo é um discurso, seja ele visual, textual, ou o que seja, para nossa sociedade e como somos responsáveis pelo que criamos e disseminamos para o mundo. Não é apenas questão de ofensa, é uma questão de humanidade.

1 – Jim Crow (1820)

Na década de 1820, o comediante branco Thomas Rice, após uma visita ao sul dos Estados Unidos, percebeu que as pessoas negras eram chamadas pelo apelido de “Crow”, tradução “Corvo”. Assim surgiu o personagem  “Jim Crow”. Esta personagem estereotipada tornou-se numa figura comum nos espetáculos teatrais de comédia – e um apelido amplamente usado para descrever pessoas de ascendência negra. Esse nome  também da origem a umas série de leis de segregação racial que foi implementada décadas depois nos Estados Unidos.

2- Fairy Soap (1875)

Propaganda de uma pintura figurativa, com a legenda uma criança branca, com roupas coloridas e o sabonete da marca norte-americana  Fairy, dizendo para uma criança negra “Por que sua mãe não lava você com o sabonete Fairy?”, comparando a pele escura da crinça a sujeira.

 

3- Eliot White Paint (1930)

A marca de tinta norte-americana Elliott White Venner com a propaganda “Veja como cobrir o preto”, com duas caricaturas de pessoas negras utilizando a tinta branca no corpo uma da outra.

 

4- Plymouth (1940)

A imagem principal neste anuncio é a foto de 4 pessoas brancas e uma pessoa negra. No fundo, vemos três homens brancos de pé ao lado do carro e um esperando no interior do carro. O homem negro está em pé, ao lado esquerdo da foto, com as bagagens, uniforme e apontando para o carro. A frase “Todos dizem que Plymouth é a beleza de 1940!” e “A America está animada para um carro de luxo!”, transmite uma mensagem totalmente direcionada aos homens americanos brancos e seu lugar de privilegio pela possibilidade de ter um transporte de luxo, enquanto a pessoa negra, é posta para servir.

5- General Eletric (1949)

A mulher negra afirmando “Com certeza tenho um bom trabalho agora!”  da empresa de tanques e maquinas de lavar para cozinha, General Eletric quer propagar a mensagem de uma nova possibilidade de dispensar alguns utensílios como lixeira e louças acumuladas, porem, diz muito mais sobre a representação da mulher negra direcionada aos objetos de cozinha e de trabalho do lar. Há diversas maneiras de vender esse objeto, e essa foi uma escolha foi infeliz por todo o preconceito que a mulher negra é atribuída nas profissões.

6 – Nadinola (1959)

O questionável produto Nadinola, utilizado como hidratante de pele, remover oleosidade, entre outros cuidados. Um deles é a possibilidade de clarear a pele, como diz a propaganda com uma mulher negra brincando de remover as pétalas da margarida “bem me quer, mal me quer”, e no rodapé da ilustração diz “Depende da margarida? Certifique-se de ter uma pele clara e brilhante!”.

 

7 – Sony PSP (2006)

Um anuncio de 2006 para o PSP White circulou por pouco tempo apenas na Holanda. Em 2017, um usuário do twitter compartilhou a foto, trazendo novamente a lembrança dessa infeliz campanha da Sony. Nela, uma mulher branca segura o rosto de uma mulher negra, como uma imposição de poder.

 

8 – Intel (2007)

A intel criou uma campanha para promover a nova linha de Processadores da Core 2 Duo. No cartaz, há um homem branco ao centro, em pé, onde é cerca por seis homens negros com roupas de atletismo. A pose dos atletas são questionáveis, por parecerem se curvarem diante do homem, como forma de submissão, pela postura de cada elemento da imagem. O homem com feições de um cargo executivo, e seus trabalhadores venerando aquela pessoa. A empresa reconheceu o erro e removeu a campanha.

 

9 – Nivea (2011)

A propaganda de 2011 da linha de produtos para cuidados e higiene para o publico masculinos da marca Nivea, surgiu e rapidamente foi retirada do ar. Nela, um homem negro com cabelos cortados e barba aparada, está em movimento de arremesso de um objeto, porem, trata-se de uma mascara de um rosto negro com barba grande e cabelo black power, um dos mais importantes ícones do movimento negro. A legenda “Civilize-se” completa o anuncio racista.

10- Dove (2011)

Prosseguindo no segmento de cuidados e higiene, a marca Dove em 2011 lançou uma campanha na qual mostravam três mulheres com diferentes tons de pele. A mensagem sugere que, após o uso de produto, a pele escura tornava mais clara. No alto da cabeça da mulher negra aparece a palavra “antes” e na mulher branca estava escrito “depois”. A campanha foi removida pela empresa.

11 – Devassa (2013)

Para apresentar sua nova cerveja, a Devassa mostra uma mulher negra seminua totalmente objetificada,  com os dizeres “Pelo corpo que se conhece a verdadeira negra”. A campanha foi advertida na época e proibida pelo Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC) do Ministério da Justiça em 2013, além da empresa receber uma multa de 6 milhões de reais.

 

12 – Qiobi (2016)

A propaganda assumidamente racista da marca chinesa de detergente em pó para maquinas de lavar, Qiobi, mostra um whitewashing de um homem negro para um homem branco após o uso do produto. Assistam o video que ainda está no ar.

13- Dove (2017)

A Dove cometeu novamente um erro em 2017. O anuncio vinculado ao Facebook mostra diversas mulheres, uma removendo a camisa para virar outra. Um dos frames mostra uma mulher negra virando uma mulher branca, com alusão ao produto de higiene e cuidados pessoais. (Lembram dos comerciais da Fairy Soap? Pois é.)

 

14 – Prada (2018)

A marca italiana Prada produziu chaveiros com vies totalmente caricato ao Blackface. Após esse episódio, a empresa tirou esse produto do mercado, e mencionou que haverá um conselho consultivo sobre questões de diversidade.

15 – Gucci (2019)

Um acessório de moda de extremo mal gosto da Gucci, faz alusão direta ao black face, uma das formas mais ofensivas e racistas com as pessoas negras (Lembram do Jim Crow? Pois é.)

 

16 – Twitter (2020)

O algoritmo do Twitter atribui uma função de reconhecimento facial de prévias, ou miniaturas, de fotos postadas na rede social. Uma ideia interessante, porem, o mesmo só reconhece rostos de pessoas brancas. Um usuário do Twitter postou uma foto do Barack Obama (negro) e de Mitch McConnell (branco), e a plataforma reconheceu apenas o rosto de Mitch para selecionar a miniatura. A plataforma disse que por enquanto, estão analisando diversas formas de melhorar o algoritmo, pois o mesmo ainda está em testes.

17 – Krespinha (1950 e 2020)

“Cabelo Bombril”, “Cabelo de esponja”, são alguns apelidos que pessoas com cabelo crespo recebem, fazendo referência a marca. Na década de 1950, a empresa Sabarco lançou no mercado a esponja “Krespinha”, com a publicidade de uma ilustração de uma menina negra associando seu cabelo ao da esponja, contribuindo para reforçar esse discurso ofensivo ao longo do tempo. Em 2020, a empresa BomBril lançou um produto semelhante com o mesmo nome, porem, ao anunciar em suas redes sociais, a empresa voltou atrás e removeu o produto de seu portfólio horas depois, e prometeu rever toda a comunicação e valorizar mais a diversidade institucional da empresa.

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Não é possível que ninguém tenha uma ideia melhor — ainda mais num mundo em que estereótipos ficam cada vez mais visados em todos os produtos apresentados. Isso aponta vários fatores do que ocorre na industria criativa, uma delas é certamente a ausência de pessoas negras trabalhando na equipe, e certificando de analisar todas essas campanhas e produtos antes de serem lançados. Inclusão, ao meu ver, é um dos primeiros passos para diminuir o racismo. Inclusão de pessoas negras trabalhando e alcançando diversos cargos, seja do mais iniciante ao mais experiente, é uma das formas de combater o racismo.

A missão de todas essas campanhas e exemplos citados acima é simples e comum em todas elas, vender o produto. Pra isso, á um discurso de persuasão, promoção, convencimento para que o publico escolha o produto anunciado como um dos itens de compra.  Podemos destacar 5 pontos da comunicação visual que esses produtos foram totalmente equivocados:

1 – Linguagem  

A campanha da Devassa, além da ilustração, surge com o Slogan “Pelo corpo se conhece a verdadeira negra” possui um viés forte machista e racista.

2 – Imagem  

A linguagem corporal de alivio, raiva do homem negro se livrando de sua mascara da marca Nivea, remete a vontade de se “limpar” de suas origens.

3 – Mensagem 

O anuncio do PSP White, é um equivoco não só pela fotografia, mas os dizeres “White is coming” transmite um discurso de prepotência e força branca.

4 – Subtextos 

A General Electric usou a imagem de uma mulher negra para anunciar seus produtos para a cozinha. Em subtexto, ou “mensagem por trás”, o que a marca quer apresentar? Pra qual publico alvo? É a única forma de vender o produto? Precisa ser uma mulher na cozinha? Homens brancos não fazem esse tipo de trabalho?

5- Associação 

O “cabelo bombril” como forma pejorativa de comparação dos cabelos crespos a esponja de aço, é um dos primeiros insultos que a criança negra poderá vivenciar.

 

O debate sempre é bem vindo, quando há o que se debater. O que foi apresentado nesse post, são evidências reais de casos de racismo manifestados através da industria criativa. Isso é um reflexo da sociedade, atribuído pelo racismo estrutural, normas que limitam e enquadram em níveis sociais que reprimem e subjugam pessoas negras. Essas manifestações que demonstramos aqui, ocorreram no design, publicidade e tecnologia, mas é um reflexo da sociedade que precisa evoluir muito para que  antes da empresa se desculpar e remover o produto, é não projetar a figura negra numa ótica ofensiva, como acontece desde muitos anos e presente hoje em dia.

O design tem um de seus pilares, criar soluções inteligentes para pessoas, e deverá ser mais democrático e inclusivo, não só pensando na finalidade, mas também, desde sua criação, como uma ferramenta para melhorar a sociedade em todos os viés humano.

A luta só começou.

Obrigado e aguardem a terceira parte sobre “O Lado Racista do Design”.

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Estou aberto a diálogos, certo? Sobre qualquer mensagem, texto e campanha dita nesse post, estou a disposição para dialogar. Inclusive, seria ótimo ter um retorno das marcas e os criadores por trás das campanhas.

Vou atualizar o post sempre que encontrar outra campanha, artigo, etc, com conotações racistas.

Apesar do titulo ser relacionado ao Design, o post tem como exemplo maioritariamente publicidade, mas usei de licença para incluir tudo no Design para seguir com o mesmo nome para trilogia dos artigos, visto que o primeiro post era sobre embalagem. 

Vale a pena olhar as referências do post. Tem muito texto interessante para que complementam o post.

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Referências:

https://www.theguardian.com/media/gallery/2015/nov/18/racist-sexist-rude-crude-worst-20th-century-advertising-in-pictures

https://www.natgeo.pt/historia/2020/02/leis-jim-crow-criaram-escravatura-com-outro-nome

https://www.ferris.edu/HTMLS/news/jimcrow/

https://uxdesign.cc/anti-racist-reading-list-for-designers-e51b3ac4bd0

https://uxplanet.org/a-brief-history-of-how-racism-manifests-itself-in-design-and-how-we-can-learn-from-it-141b1b5ddd4b

https://www.designmantic.com/blog/racism-in-advertising/

https://www.ranker.com/list/racist-vintage-ads/erica-braverman

https://www.natgeo.pt/historia/2020/02/leis-jim-crow-criaram-escravatura-com-outro-nome

https://veja.abril.com.br/economia/brasil-kirin-pode-ser-punida-por-publicidade-da-devassa/

https://www.insider.com/designers-like-gucci-keep-facing-cultural-appropriation-accusations-2019-5

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53081428

https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/09/21/executivos-do-twitter-dizem-que-irao-analisar-possivel-vies-discriminatorio-em-algoritmo-de-previa-de-imagens.ghtml