O Queer Museu e a arte: estamos prontos para falar disso?

Passado alguns dias acho que hoje já podemos conversar sobre o assunto, sem que nenhum dos lados fique tão zangado como aconteceu dias atrás…

Vou começar esse texto como comecei outros milhares deles ou nas infinitas conversas que tive nas últimas semanas, explicando que arte é algo extremamente subjetivo. Mas, o que isso quer dizer? Isso significa que para você ter um entendimento sobre alguma obra de arte, quaisquer uma delas, depende de uma série de fatores, que vão desde como você foi criado, a escola que você frequentou, a religião que você segue, até mesmo como você foi tratado pelos pais dos seus amiguinhos quando era pequeno, ou seja, depende de inúmeros fatos sócio-culturais. Portanto, tudo que você ler nesse texto, corresponde única e exclusivamente à minha forma de pensar, ao meu ponto de vista, formado pelo que vi, vivi, estudei e aprendi.

Apenas para situar quem está caindo aqui de paraquedas, a polêmica toda começou quando alguns ativistas de uma frente política visitaram a exposição Queer Museu, organizada pelo Banco Santander, voltada para a frente LGBT, com o intuito de dissolver, mesmo que um pouco, o preconceito por eles vivido, e entenderam algumas das obras como sendo apologia ao estupro, à pedofilia e à zoofilia, além de violação de imagens religiosas.

Algumas dessas cenas estavam sim retratadas nas obras, não há como negar, entretanto temos que pensar que fatos como esses ocorrem e são mais comuns do que muitos de nós podemos imaginar. Aqui vale ressaltar um ponto que todos devemos concordar, todos esses distúrbios sexuais são bizarros, nojentos e merecem punições à altura.

Para alguns dos ativistas que estiveram presentes na exposição, as obras ali contidas não eram ou não poderiam ser consideradas como arte, única e exclusivamente pelo seu ponto de vista. Devemos lembrar que arte, além de subjetiva como já disse acima, tem como algumas de suas funções a quebra de paradigmas, acirrar o pensamento, fomentar a discussão e porque não educar?

E como a arte promove essas suas funções? De inúmeras maneiras, desde o belo, até mesmo o feio e com certeza o chocante.

Quando observamos uma obra de arte é importante que analisemos uma série de pormenores que estão por trás desse objeto. Quem o produziu, a época que foi produzido, sob quais circunstâncias foi produzido, são alguns dos pontos a serem observados.

No caso específico do Queer Museu muito se falou da obra abaixo:

Crianca_Viada

Confesso que, em um primeiro momento, fiquei chocado e até mesmo ofendido por ela, pois via nela algo de sexualização infantil, entretanto, parei para pensar a respeito dessa obra e seu significado, mesmo ainda sem saber da história da artista ou mesmo o sentido que ela quis dar à obra, e passei a ter uma visão menos agressiva sobre ela, uma vez que passei a entender que essa obra nada mais era que uma crítica àquilo que tanto me incomodou – a sexualização infantil – uma vez que infelizmente vemos cada vez mais, tanto na mídia como no próprio dia a dia, inúmeras crianças sendo bombardeadas por diversos meios que propagam a sexualização, sendo na música, nos filmes, na novela ou até mesmo em programas que deveriam ser exclusivos para crianças.

Depois fui atrás para entender um pouco melhor e ter uma opinião mais precisa, talvez até mesmo mudar a que já tinha formado e descobri que essa obra da artista Bia Leite era inspirada em um Tumblr chamado Criança Viada, que mostrava fotos reais de homosexuais quando crianças, com o intuito de mostrar que eles sempre foram assim, que homosexualidade não é algo que se adquire, que eles o são simplesmente porque o são.

Outra obra que causou polêmica é Cena de Interior II (1994) da artista Adriana Varejão, essa apontada como uma obra de apologia à zoofilia, uma vez que retrata o coito entre dois homens e uma cabra. Baseada no estilo japonês de Shunga, (que retrata cenas eróticas) e segundo Varejão apenas expõe narrativas literárias e ou coletadas em viagens pelo Brasil e reforça em entrevista ao jornal El Pais que apenas buscava jogar luz sobre esses assuntos.

Cena de Interior II Adriana Varejao

Shunga

É bem latente a desinformação de alguns acerca da obra, uma vez que o sexo entre homens e animais é mais presente no nosso dia a dia do que podemos imaginar (mais uma vez, essa é uma prática ilegal e que deve ser punida) no interior, longe das grandes capitais, é extremamente comum garotos perderem a virgindade com animais e nas grandes capitais é muito alto o índice de estupros de animais domésticos (eu, particularmente, não sabia de casos como esses, mas com a repercussão da obra, uma amiga defensora dos animais veio me falar de alguns dos horrores que os bichinhos sofrem… Dolorido saber, mas a arte cumpriu algumas das suas funções, como educar e acirrar discussões), prefiro pensar na desinformação das pessoas e não que elas apenas virem as costas para esses assuntos.

Retratar o assunto não é coisa recente. Hieronymus Bosh, influente pintor holandês, a fim de retratar algumas das mazelas pelas quais a igreja católica passava à época,  ainda no século XVI retratou na obra “Jardins da Delícia”: uma cabra com vestes de freira copulando com um aristocrata, numa clara referência a corrupção, algo como se a igreja e seu rebanho se vendessem aos interesses dos mais abastados como prostitutas. Ok, o contexto é outro, mas será que se fosse visto hoje, a reação não seria a mesma?

jardim

Para finalizar as obras, a última mais polêmica, acusada de vilipendiar imagens cristãs. Do artista Fernando Baril, que cria uma fusão entre Jesus e a deusa hindu Shiva. Detratores da obra parecem esquecer que essas são apenas representações assim como a imagem que temos de Jesus hoje, vinda da renascença com traços claramente europeus. Quem pode falar algo a respeito da imagem de alguém se nem mesmo sabemos como é a imagem real dessa pessoa? H.R. Giger, um dos meus designers preferidos, já retratou imagens sacras de inúmeras maneiras chocantes e poucos se sentem ofendidos por elas, o que me leva a crer que muito da polêmica em torno da obra seja apenas por estarem em uma exposição LGBT.

Cruzando_Jesus_Shiva

giger3

Não quero que ninguém pense que tenho razão em quaisquer que sejam minhas observações acerca das obras, uma vez que, como já disse, são subjetivas e correspondem ao meu ponto de vista. Você pode tomar o que escrevi como 100% verdade, meia verdade ou uma completa baboseira, pois não estará errado, porque seus pontos de vista diferem do meu. Entretanto, há de se frisar que a exposição ganhou ares de perversa e foi fechada, graças ao empenho do movimento político que usou as obras apenas como um meio para justificar seu descontentamento pelo banco ter tomado incentivos públicos para financiar a exposição. Logo surgiram frases como “estão usando meu dinheiro para promover pedofilia e zoofilia”, deixando pra trás todo o significado das obras.

autumn-rhythm

É importante que, ao observarmos uma obra de arte, independente do que ela seja, uma instalação, uma escultura, uma pintura ou qualquer outra manifestação, nos despirmos de ideias pré concebidas, de ideias que nem sempre foram geradas na nossa mente, mas na mente de outras pessoas que convivemos. Como quando observamos um quadro de Jackson Pollock e ouvimos: “São só rabiscos”. Será mesmo que são apenas rabiscos? Ou será que a cada pincelada na tela reflete o sentimento do pintor naquele momento? Reflete um pensamento dele? Ou ainda, quando estamos ouvindo aquela tosca banda de punk rock com músicas de três acordes, mas que nos empolga, nos deixa feliz e uma parente desinformada nos diz que aquilo é só barulho. Pode até ser barulho, mas reflete toda uma época, toda a raiva contra o sistema que governava a época.

Poderíamos, e confesso seria uma delícia, conversar horas e horas a fio sobre o que é arte ou não, mas infelizmente não é possível, entretanto espero que com esse texto possamos ver a arte de uma forma mais abrangente assim como ela é.